2007-06-12

ECOS DA LITERATURA INGLESA NO TRABALHO DE PAULA REGO

Paula Rego define-se como uma contadora de histórias, facto realmente visível através de toda uma estonteante intertextualidade capaz de abraçar campos vastíssimos que se estendem da literatura a expressões artísticas mais pictóricas. “Para pintar é preciso uma história”[1], diz a artista, facto sublinhado por Agustina Bessa-Luís no seu livro As Meninas (2001): “o desenho de Paula Rego é uma escrita”. No seguimento desta observação pode ter-se em conta Stephen Spender: “No decorrer do seu trabalho, os pintores aplicam e exercitam algumas das qualidades essenciais à boa escrita. Para além das mais óbvias, como o poder organizador da imaginação visual, observam (segundo a designação de Blake) o peculiar de cada instante (“Painters as Writers”).

Ao longo deste ensaio irei concentrar-me nos quadros de Paula Rego directamente influenciados por obras da Literatura Inglesa, num universo que se estende desde as canções de embalar até Thomas Hardy, J. M. Barrie, George Orwell, Jean Rhys ou Blake Morrison.

A dimensão política visível nos primeiros trabalhos de Paula Rego

Apesar de não se considerar uma pintora política[2] é visível todo um compromisso político no seu trabalho, facto mais do que flagrante em The Prole’s Wall (1984) – exposto em Lisboa, na Fundação Gulbenkian – baseado no romance de George Orwell Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1949). O quadro foi encomendado para uma exposição no Camden Arts Center em Londres, no ano de 1984.

Na sua distopía Orwell dramatiza os perigos do totalitarismo, produzindo simultaneamente um comentário acutilante à situação política da Europa não perdendo de vista a Alemanha Nazi, a Rússia e ainda algumas das ainda vigentes ditaduras europeias da época: a Espanha de Franco ou o Portugal de Salazar. Na verdade, Paula Rego teria já dado liberdade à sua expressão de rejeição perante o regime Salazarista no quadro Salazar Vomita a Pátria (1960).

Em The Prole’s Wall, o elemento pessoa aparece representado através de animais domesticados, criaturas sub-humanas subjugadas pelos seus donos. São proletários, como o próprio nome do quadro indica, representados como no livro de Orwell como uma classe sem posses. John McEwen explica que quando Paula Rego “começa a pensar nas imagens visuais relacionadas com a história de Orwell, lhe ocorre que esta classe proletária ao não saber escrever, por lhe ter sido negado o acesso à educação, encontra no desenho um veículo primário de expressão”.

Winston Smith, protagonista do romance de Orwell, funcionário do Ministério da Verdade (que corresponde na verdade ao Ministério da Mentira), é representado por Paula Rego como um urso de peluche, enquanto que O’Brien (a personagem que trai Winston e Júlia) é representado como um urso. Por sua vez, Júlia aparece como um cruzamento entre uma boneca e uma mulher. Existe entre Paula Rego e o autor de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro uma partilha de cariz satírico no uso e representação de animais com intuitos políticos. Em Animal Farm (1945), uma fábula satírica sobre a Rússia Revolucionária e Pós-Revolucionária e sobre as revoluções em geral, Orwell transforma o porco num líder capaz de expulsar humanos para fora da quinta. Paula Rego descreve o porco como um dos seus animais preferidos.

Ambos partilham um compromisso de forte criticismo político para com a situação da Espanha dominada por Franco. Em Homage to Catalonia (1939), Orwell descreve a Guerra Civil Espanhola como a experiência política mais importante da sua vida.

Os quadros Iberian Dawn (1962) e Stray Dogs (The Dogs of Barcelona) (1965) criticam fortemente as ditaduras em Portugal e Espanha. John McEwen explica a génese de Stray Dogs: “Houve um relatório publicado no The Times que explicava o método usado pelas autoridades de Barcelona para se verem livres dos diversos surtos de cães vadios, método esse que consistia na distribuição de carne envenenada. Em The Dogs From Barcelona Paula Rego elabora uma espécie de equação entre a brutalidade desmedida desta decisão e tantas outras directivas igualmente duras tomadas pelas autoridades representantes das ditaduras de Portugal e Espanha”. Alberto de Lacerda também destaca a faceta ideológica e intervencionista de alguns dos trabalhos da pintora dizendo: “mesmo quando remetidos para experiências e cenários mais do domínio privado revelam um imensa revolta moral, social e política. É o caso dessa obra prima intitulada Stray Dogs. O quadro em questão (onde aparece a palavra Franco) começou por se chamar The Dogs of Barcelona, sendo posteriormente renomeado com o intuito de evitar problemas com os fascistas Portugueses” (McEwen, 77, 83).

Nursery Rhymes

Nursery Rhymes (1994) são outro claro exemplo de forte presença do traço da Literatura Inglesa na obra de Paula Rego. Trata-se de uma série de trinta imagens (em água-forte) que ilustram algumas das suas cantigas de embalar inglesas preferidas. Este foi o material da sua primeira exposição a solo no Marlborough Fine Art Gallery em 1989.

Algumas das preocupações temáticas mais importantes do trabalho da pintora estão explícitas nesta sequência de trabalhos: é visível todo um interesse na simbologia adjacente ao universo infantil, uma proximidade evidente entre pessoas e animais, uma forte influência da violência e um intenso interesse pelas questões do folclore. Paula Rego passou vários meses na British Library pesquisando exaustivamente o universo dos contos de fadas, bem como os registos das suas ilustrações onde se cruza com o trabalho de John Tenniel (ilustrador da época vitoriana responsável pela representação da personagem Alice dos livros de Lewis Carrol – Alice in Wonderland e Alice Through the Looking Glass); Beatrix Potter e Arthur Rackham, o pintor de gnomos. Nursery Rhymes acaba por ser uma espécie de tributo da pintora a estes artistas Vitorianos.

É nota dominante ao longo destas imagens todo um espaço comum entre crianças e animais antropomórficos. John McEwen considera estas ilustrações completamente subversivas – a sua forte componente erótica vem realçar a fronteira ténue entre a descoberta da sexualidade e o sentido de animalidade, pontos expressos de uma forma intensiva nos contos de fadas mais tradicionais, género que partilha toda uma série de similaridades com as Nursery Rhymes. A abordagem pós-Freudiana de Paula Rego às coisas da infância em conjunto com o género reinterpretativo que lhe é característico e que sugere a necessidade de um posicionamento psico-analítico é mais do que visível em Three Blind Mice, onde uma mulher fálica, esposa de um agricultor, ameaça com uma faca três ratos cegos, evocando inevitavelmente a descrição de Freud sobre o inconsciente medo masculino da castração e decapitação à mercê de uma mão feminina. Por sua vez, a cegueira evoca o conflito de Édipo que se cega depois de saber que a mulher com quem casara era a sua própria mãe. A pintora admite pintar com o intuito de dar ao medo um rosto, introduzindo permanentemente detalhes potencialmente subversivos para com a estrutura narrativa dos seus quadros. Marina Warner observa que Paula Rego se posiciona na perspectiva do menos forte, apropriando-se do lado e da visão das crianças, tomando o partido do monstro e nunca o da bela, não reproduzindo contudo visões simplistas das vítimas e seus opressores, facto capaz de surpreender quase permanentemente quem observa o seu trabalho.

Será possível estabelecer um paralelo entre o trabalho de Angela Carter e Paula Rego baseado no compromisso pictórico e ficcional entre os contos de fadas e as narrativas folclóricas mais tradicionais. Apesar de apenas se terem cruzado fisicamente uma única vez, ambas têm como amizade comum a escritora e ensaísta Marina Warner. Existe uma intersecção ao nível do universo simbólico de ambas: as figuras de animais com características antropomórficas, as raparigas adolescentes, os ritos de passagem, um certo compromisso político e cultural no que concerne à posição das mulheres dentro da esfera doméstica e consequentemente fora da mesma.

A bestialidade de Paula Rego, à semelhança da de Angela Carter, é excessiva e extensa. Figuras como cães, macacos ou urso dominam o imaginário da pintora enquanto que no caso da escritora inglesa existe uma maior predominância de figuras como lobos ou tigres. É neste mesmo contexto que surge Os Contos de Fadas (1985), representativos da sua visão subversiva deste género de contos tradicionais. As personagens distanciam-se, enquanto figuras, da visão iconograficamente redentora das suas equivalentes nas obras de animação de Walt Disney. Paula Rego apresenta-as de uma forma exuberante e grotesca numa reinterpretação quase ao estilo de Carter – rainhas más travestidas, papagaios fadados segurando varinhas mágicas, um insecto vestido de bailarina e um urso princesa.

Peter Pan

É a peça Peter Pan[3], de J. M. Barrie, que inspira Paula Rego a iniciar uma outra série de trabalhos. A encomenda é feita pela Folio Society com o intuito de criar uma nova edição ilustrada da obra cujo conteúdo daria hipótese à pintora de representar de um modo algo penetrante alguns dos receios da infância.

O comportamento mimético de Peter Pan relativamente a toda uma série de papeis associados à idade adulta, a par com a noção de que não será nunca responsabilizado pela forma como age, dá origem ao denominado síndrome de Peter Pan. O próprio autor do livro só mais tarde percebe a importância das suas próprias palavras: “Só algum tempo depois de o ter escrito é que me apercebi do seu verdadeiro significado – uma enorme inabilidade em assumir um processo de crescimento” (Peter Pan, Introdução, xxvii) Por sua vez, Wendy aparece como uma figura maternal – uma criança forçada a assumir um papel de grande responsabilidade ao ser levada para a Terra do Nunca para cuidar dos seus habitantes (também eles crianças)[4]. A história Peter and Wendy é realmente perturbadora porque lida com os medos mais recônditos da infância tendo no entanto, como contraponto, o desejo crescente que se instala em alguns adultos em anularem responsabilidades e manterem os privilégios a que só as crianças têm direito.

Todos esses medos e ameaças mal percepcionadas por parte de todas as crianças materializam-se nesta série de trabalhos através diversas figuras assustadoras, algumas de estatura gigantesca como a cara que espreita para a casa subterrânea onde Wendy desempenha o seu papel de figura maternal – The House Under The Ground (1992). Existe ainda a medonha figura do Capitão Gancho, representado com um esqueleto, em cima de uma carruagem na companhia de outros habitante da Terra do Nunca, todos eles altamente perturbadores – The Never Land (1992).

A própria figura de Peter Pan tem muito pouco de criança inocente – é a imagem frustrada de um potencial adulto, que a determinada altura invade o habitat infantil da família Darling, incitando sedutoramente três crianças a uma espécie de fuga com a promessa de inúmeras aventuras, oferecendo-lhes ainda a possibilidade de voar. Entre as muitas leituras que se podem fazer desta personagem há que ter em conta o facto de Peter providenciar o acesso a tudo aquilo que uma típica rapariga vitoriana jamais teria oportunidade de fazer, como andar metida e aventuras, lutar contra piratas ou fumar cachimbo, sendo por esta via possível projectar nele uma outra Wendy. A filha de Mrs. Darling explica-lhe que Peter é exactamente do seu tamanho, legitimando-o quase como um companheiro de todas as horas e situações através do qual pode atingir a realização de alguns dos seus desejos mais secretos. Descreve-lhe ainda como em determinadas alturas Peter se senta aos pés da sua cama e toca flauta, comportamento descrito por Marjorie Garber como uma quase inexistência de amor romântico dentro da personagem. Assim, Peter não concebe para Wendy, Tinker Bell ou Tiger Lilly outro papel para além do associado a uma postura maternal. Peter and Wendy versa essencialmente sobre a ausência da figura da materna. Peter enfatiza o facto de não ter mãe dizendo ainda que não tem a mínima necessidade de ter uma porque são figuras sobrestimadas, pensando, por outro lado, que as crianças da Terra do Nunca deveriam ter uma mãe.

Paula Rego considera a versão de Peter Pan de J. M. Barrie bem mais triste que a versão da Disney, acrescentando que a considera, apesar de tudo, uma história reconfortante dado que as crianças sabem poder imaginariamente voar até à Terra do Nunca onde todos os perigos estão controlados[5].

Wide Sargasso Sea de Jean Rhys

Jean Rhys e o seu trabalho são alvo da atenção e admiração de Paula Rego. Após a leitura da Wide Sargasso Sea a pintora faz alguns desenhos, posteriormente apresentados na Marlborough Gallery juntamente com o seu trabalho sobre Peter Pan, numa exposição intitulada “Peter Pan and Other Stories”.

Existe neste livro de Rhys uma revisitação com um tom algo crítico ao universo de Jane Eire, romance de Charlotte Bronte, onde é explorada de forma mais profunda uma das suas personagens – Bertha Mason Rochester, primeira mulher de Mr. Rochester e figura algo misteriosa. Vista por Rhys como Antoinette, é-lhe dado um traço assumidamente mais crioulo, na tentativa de reforçar toda uma série de características deixadas para segundo plano no romance original de Charlotte Bronte. Os desenhos produzidos por Paula Rego exploram isso mesmo: The Wide Sargasso III retrata a convivência entre humanos e animais numa cena de intimidade doméstica aparentemente demasiado claustrofóbica. São visíveis diversas janelas abertas, uma possibilidade de fuga ao nível da imaginação ou do sonho, enquanto a figura de Antoinette aparece quase metamorfoseada e repetida no lado esquerdo do desenho. A cena em que uma ameaçadora figura masculina persegue uma menina num bosque pode ter sido inspirada por uma passagem semelhante presente no romance de Rhys: Antoinette mostra-se uma figura desamparada pedindo ajuda a seus empregados. Também relacionado com o romance são os vestígios da prática de voodoo em nome de Antoinette.

Victor Willing, marido da pintora, caracteriza tematicamente o trabalho de Paula Rego abordando-o como algo entre “a dominação e a revolta, o sufoco e a fuga”, tópicos recorrentes da produção literária feminina do século XIX e início do século XX. Sandra Gilbert e Susan Gubar, autoras de The Madwoman in the Attic: The Woman Writer and the Nineteenth-Century Literary Imagination (1979), falam de uma tradição literária no feminino de traço distinto – “imagens de clausura e fuga, fantasias de desdobramento geradas por impossibilidades sociais, metáforas de desconforto físico expressas sob a forma de paisagens gélidas e interiores bem mais quentes. Associadas a tudo isto aparecem ainda representações quase obsessivas de doenças como anorexia, claustrofobia ou agorafobia. Tudo isto é realmente palpável em Wide Sargasso Sea de Jean Rhys tendo Paula Rego expresso pictoricamente a tal claustrofobia que cercava os espaços femininos.

Por sua vez, Wide Sargasso Sea I, retrata uma cena de varanda adormecida pelo calor tropical. Todas as figuras retratadas aparecem impecavelmente vestidas ao jeito de Antigua (local onde se desenrola o romance) na década de 30 do século XIX, sendo visível uma figura feminina completamente despida dormindo ao fundo. Num plano mais próximo percebe-se uma sombra de uma rapariga adormecida sem correspondência aparente com qualquer uma das figuras do desenho – uma sombra sem dono, reflexo possível dos sentimentos da talvez descontextualização quase alienada de Antoinette. A sua existência é um sinal quase aberrante da inexplicável ausência de um “eu” reprimido e insistente que faz questão de se transportar até à superfície do consciente. Poderá ainda ser vista como um produto de produção paralela já que este desenho foi feito quase ao mesmo tempo que Wendy Sewing on Peter’s Shadow (1992) para ser exibido na mesma exposição.

O conceito Junguiano da sombra parece ajustar-se particularmente bem a qualquer interpretação destes quadros – tendo em conta a sua relação geográfica com o indivíduo, a sombra representa todas as características presentes mas plenamente negadas pelo “eu”. Para se atingir alguma plenitude é essencial que essas mesmas características sejam reintegradas no consciente. Jung refere-se às sombras como o lado mais escuro da personalidade, podendo ser feita uma associação de ideias com a questão do duplo: doppelgänger[6]. Otto Rank sugere que por entre as primeiras considerações feitas acerca da alma, a questão da sombra é tratada como um reflexo do corpo apesar da leveza da sua substância, noção altamente presente no quadro de Paula Rego em que Wendy costura a sombra de Peter para que não volte a desaparecer. Ursula K. Le Guin afirma que a sombra é o lado escuro da mente, posicionando-a no limiar do consciente e admitindo-a como tudo aquilo que não se deseja integrar e se reprime. No caso de Peter Pan pode afirmar-se a sombra como a representação da maturidade que desesperadamente tenta evitar, tentando a todo o custo manter-se eternamente criança.

Ainda a propósito, John Clute observa que em questões de fantasia, “a relação sombra/duplo representa a separação do ‘eu’ face a todos os elementos discordantes como se de uma situação trágica, a ser transcendida, se tratasse”. Assim, e tendo em conta as diversas versões feitas por Paula Rego da situação em que Wendy costura a sombra de Peter, verifica-se: a disparidade entre esta personagem e a sua outra metade; a ameaça permanente de uma queda que o poderia transformar num ser interiormente dividido e com uma gritante incapacidade de distinguir entre o bem e o mal.

The Return of the Native

Os ecos da literatura inglesa manifestam-se novamente no trabalho de Paula Rego por influência do romance de Thomas Hardy The Return of the Native (1878). McEwen explica que foi Natalie Dower, amiga ligada à Slade School of Art, a sugerir a leitura deste livro: “Cativou-a. Fez uma viagem pela zona mais rural de Dorset para lá encontrar um tipo de paisagem concordante com a desolação e grandeza que procurava”. O resultado final materializou-se num quadro gigantesco, The Return of the Native (1993), que pode ser visto na Embaixada Portuguesa em Londres.

Em As Meninas, Agustina Bessa-Luís afirma que este é “um dos quadros de Paula Rego mais irresistíveis”. A própria pintora explica que pintar paisagens não é o seu ponto forte e que teve de desenhar exaustivamente montanhas, vales e flores – foi um trabalho doloroso.

Duas figuras semelhantes a bonecas sugerem um desejo quase incontrolável se retornar à infância e permanecer imune face às pressões e problemas da idade adulta. Ansiedades e medos ameaçadores representados por animais meio escondidos aos quais se junta uma figura híbrida com um ar demoníaco num plano de fundo, acompanhados por duas também figuras, estas masculinas, furtivas pela forma como se escondem, que impõem ao seu tom de ameaça uma certa clandestinidade. É central no quadro a presença de duas figuras femininas deitadas no chão, aparentemente adormecidas. Agustina Bessa-Luís identifica a mais central, de vestido lilás, como D. Violeta – professora de Paula Rego que lhe dava aulas em casa e pela qual a pintora não sentia grande empatia (As Meninas, 68). Pode, no entanto, considerar-se esta figura como a representação de Eustacia Vye, que se sente infeliz e pouco preenchida com a vida que leva em Egdon Heath e sonha com viver em Paris. O facto de estar recostada sugere para além da frustração uma procura de refúgio relativamente a todas as escolhas que eventualmente terá que fazer. D. H. Lawrence, que escreveu eloquentemente sobre The Return of the Native, descreve Egdon Heath da seguinte forma: “…é a terra primeira e primitiva onde a vida instintiva como que se eleva. Lá, na profunda e rude agitação dos instintos, reside uma realidade que funciona como tragédia. Junto ao âmago das coisas pode ouvir-se o tumulto que nos constrói e destrói. (…) o solo escuro de Egdon é forte, bruto e orgânico como o corpo de uma besta”. (“Study of Thomas Hardy”, 25). As palavras de Lawrence sobre Eustacia podem servir parcialmente de epígrafe quanto ao quadro de Paula Rego, confirmando de certa forma a suposição sobre o seu papel.

Pendle Witches

A sombra de Goya, mais do evidente em Nursery Rhymes, paira também sobre as ilustrações dos poemas de Blake Morrison, escritor contemporâneo e autor prolífero de toda uma série de obras que se estendem desde a poesia às memórias ficcionais. Temas como a violência do domínio público e privado, a misoginia e os relacionamentos familiares motivam Paula Rego a produzir Pendle Witches (1998).

A ilustração do poema “A Concise Definition of Aswers” retrata de forma algo condensada alguns dos interesses da pintora: referências bíblicas a cidades destruídas por comportamentos viciosos em excesso e toda uma desobediência provocada pela profanação do sagrado. A cena que retrata uma planície num cruzamento entre algo libidinoso e a violência inerente ao mundo animal, sugerida por um macaco montado numa águia e um gato que come um pássaro. Numa posição central aparece uma rapariga segurando um “coador de framboesas chuva”, figura evocadora de uma possível salvação ou purificação, de uma oportunidade de renascimento através da água baptismal, como que a evocar Waste Land de T.S. Eliot (apesar de o seu tom final ser algo mais pessimista).

Ao servir-se do grotesco, Paula Rego tenta focar-se nas formas como o ser humano pode percepcionar melhor alguns dos seus elementos mais reprimidos e, no caso de não existir um confronto directo com esses mesmos elementos, fica a honestidade da sua capacidade de representação pictórica conciliada com o seu esforço e interesse pela apreensão e representação de todo um sem número de aspectos relacionados com a literatura inglesa.



[1] Em entrevista conduzida por Rodrigues da Silva, “Inocências e travessuras”, Jornal das Letras, 3 de Junho de 1998, 9-11,9.

[2] Entrevista em Setembro de 2000.

[3] Levada a cena pela primeira vez em 1904 com o título alternativo – The Boy Who Would Not Grow Up.

[4] Mary Louise Ennis comenta que em versões mais antigas da história de Peter Pan, num período em que Freud estava a definir a sexualidade durante a adolescência, as personagens femininas rejeitam este papel maternal. Dão preferência a relacionamentos de cariz mais sexualizado, sem o envolvimento emocional das figuras masculinas.

[5] Paula Rego compara, durante uma entrevista (Setembro 2000), Peter Pan a Pinóquio, admitindo a recusa do processo de crescimento visível em ambos. A figura de Peter Pan é, na opinião da pintora, bem mais estimulante para as raparigas pelo facto de a maioria delas querer efectivamente ser como ele: a capacidade de voar é determinante aqui. Pinóquio, figura bem menos atraente, assemelha-se a Peter Pan por não ter mãe ou um pai no sentido biológico. Ambas as histórias dramatizam um receio recorrente da infância – o abandono por parte da família e a eventualidade de se perder uma mãe ou um pai.

[6] Harry Tucker Jr: “o conceito de dualidade primitivamente associado à alma (o indivíduo e a sua alma) manifesta-se ao homem moderno pela certeza da imortalidade, tendo como contraponto o assustador anúncio da morte”.


2007-04-03

Ao olhar as janelas daqueles compartimentos onde habitualmente se vivem as experiências quase religiosas do pensamento e perceber que nem sempre por elas entram as coisas ou as pessoas que faltam nesses momentos dá para acender ou apagar algumas luzes. O riso mistura-se com o choro e o auto-abraço começa pois a velar por toda uma saúde interior. Ordens naturais ou dados adquiridos são conceitos em declínio nestes momentos. Chega a necessidade de revisitar situações ou cobrar o anteriormente imutável, agora discutível e nada reconfortante. Apresenta-se o esquecimento e tenta-se a todo o custo evitá-lo.

As carnes interiores revolvem-se ao ar da rua, dando a sensação de ferida sem a mais pequena esperança de cicatrização… o corpo apreende novas posturas, tornando-se disfuncional – como se uma série de abelhas atarefadas o tivessem readaptado. Assemelha-se a uma espécie de bolo volumoso, em nada tolerante ao toque de quem não lhe sabe mexer. Procurando um tipo de protecção mais eficaz para todo este mal, fica-se por casa pensando em pernas para que vos não quero, lutando contra uma ou outra reminiscência abandonada pelos cantos da persistência da memória, injuriando aquela nuvem danada que não sai de cima com a sua atitude de quem só faz aquilo que lhe dá na cabeça. Certas e determinadas recordações deixam-se fechar em caixas tipo número de ilusionismo, cedo percebendo que de Houdini pouco ou nada têm e que as fechaduras que as acorrentam não lhes trarão a feliz passagem libertadora para uma qualquer glória postiça. Energicamente ansiosas enquanto a caixa vai mergulhando cada vez mais fundo num tanque transparente e cheio de água fecham os olhos ainda assim acreditando. Daí até perceberem que o único momento glorioso que vão ter pela frente é o esquecimento do nunca mais serem vistas com vida dentro ou fora de uma caixa de ilusionismo vai um pequeno suspiro, talvez até o último antes de a água lhes saturar as vias pulmonares. Tudo o mais que é matéria da memória veste por breves momentos o ar fúnebre de uma forma algo cínica e com ares de cerimónia de estado, cumprindo assim o aborrecido protocolo. Opinativas até à exaustão dão a entender que seria preferível cremar a enterrar: “Por uma questão de higiene”. O seu sentido de sobrevivência evoluíra até ao estado seguinte transformando-se assim em sentido prático. Tudo o que se coloca a sete palmos de terra pode ser reposto novamente ao nível do solo. Já as cinzas, depois de espalhadas em cenários cheios de significado e escolhidos a dedo, serão libertadas ao sabor irrecuperável do vento, desaparecendo por completo da materialidade e, acima de tudo, evitando visitas mortificantes a lápides que mais se assemelham a interruptores que ligam luzes para melhor iluminar determinadas fracções do passado. Despindo-se rapidamente do ar pesaroso deste género de cerimónias adoptam aquela postura enérgica do andar com a vida para a frente, o que neste caso é o mesmo que não ir a lado algum, revisitando agora incessantemente tempos anteriores sem a presença e a pertinência das recordações agora espalhadas por todo o planeta.

Há que continuar a carpir mas noutro registo, com uma convincente e adequada postura que inspire a confiança necessária. Afinal, não é a qualquer tipo de memória que se entrega a construção de um caminho em que erradamente se iniciará o futuro e não o presente.

2007-03-17

Me And My Charms (II)

Ao olhar a mão, repara que treme ligeiramente. O chorar só não partilha gotas de água salgada com os outros. Tudo no silêncio, no escuro, no canto da sala sem pulsos para cortar, sem valetas ou fossas moribundas para depositar o corpo. Sofre a agonia no silêncio e por lá fica porque não a quer levar para a rua. Lá é que ela está bem. De lá é que nunca deveria ter abalado. Só, mal acompanhada, comendo ostras, contemplando-se ferozmente por já não suportar olhar-se naquele espelho, antiga herança de família com um valor incalculável a todos os níveis.
Da agonia faziam parte as viagens diárias ao fim da jornada de trabalho, do imenso acontecer da cidade grande até ao não se passa nada da terrinha ainda repleta de couves e trampa de vaca na estrada-caminho. Depressão suburbana à nossa escala, com bairros de casinhas raquíticas onde dormem homens e cozinham mulheres. Atrofiado do ainda, entrar em casa e olhar quem por lá anda. A troca habitual de palavras cheira a não tenho absolutamente nada com esta gente. Por isto castiga a angústia. Os velhos é que sabem, mas aparentemente há que procurar pelos cantos do quarto por aquilo que têm na cabeça. Vive no limiar dos dois sítios: o do querer abrir-lhes portas e janelas e o do ficar na cave a conversar com as traças, vendo o mofo alojar-se lentamente na pele. A cabeça dos velhinhos parece por vezes uma casa abandonada, mas no fundo sabe poder encontrar por lá um compartimento amplo com janelas abertas de para em par, por onde o sol entra prepotente e se não respira a pó e móveis velhos.
Enquanto não lhe ocorrem palavras que proporcionem o início da comunhão procura no meio do silêncio algo que o possa distrair de uma forma assumida. Actividades individuais onde ninguém possa intervir. Senhor do seu nariz nada teme da solidão, vive em harmonia com ela e perdem-se no lirismo da afinidade desgostosa. A ausência da substância torna-lhe a parte do corpo onde fica o espírito quase necessitada de ausência de humanidade. Lembra-se do comboio, da viagem do tudo para o nada, da falta de entretenimento do nada que faz com que consiga ouvir “quem mora na sua cabeça”.
Por nunca ter encontrado uma solução para esta paragem digna de um pântano na terra do nada, começa por tomar comprimidos de felicidade. Nesta altura mergulha no escuro e quebra o contacto com os habitantes da casa e do mundo em geral. Atrofiado por este placebo, apaixona-se pelo repetitivo linear. Madrasta, essa paixão proporciona-lhe altos e baixos de uma amplitude que nem num minuto consegue a estabilidade necessária para escolher a roupa que vai vestir. Um bocado como as suas viagens: do tudo para o nada e ao contrário numa questão de minutos. Inconciliável, sabe que assim o é e nada faz. Algo repetido vezes sem conta, com a mesma cor e intensidade, numa vida em que do a se passa para o h, não sem antes ir a y em ambos os lados do alfabeto: o lado de cima e o lado de baixo. Tensão, falta de conforto, um abismo em que já se bateu no fundo mas parece a queda ainda não ter terminado.

Quase sem querer entrara no esquema da coisa, embora fosse algo que já lhe tivesse passado pela cabeça. A noite fazia com que ao olhar pela janela se visse a si próprio reflectido, fazendo-o pensar ainda mais em tudo aquilo, enquanto batia repetitivamente com a cabeça no vidro. O factor comboio com mais de trinta e cinco anos proporcionava-lhe um momento introspectivo raro em que não se conseguia ouvir direito dentro da sua cabeça e só aquele chinfrim lhe ecoava pelo cérebro. O seu pensamento parecia um filme de cinema mudo onde só a imagem existia e, no fundo, o silêncio fora substituído pela recusa do governo em investir nas infra-estruturas necessárias ao bom funcionamento da sanidade mental dos contribuintes.
Quase massajado pela trepidação chega ao apeadeiro e pouco depois de descer as escadas de metal e pisar o cimento estalado e esquecido da plataforma sente-se agredido pelo silêncio e pela falta de movimento. Sabe que daí a pouco terá os ouvidos mais serenos, prontos para captar sons que se processem a mais de dois ou três quilómetros do sítio em que se encontra. Sabe também que se não quiser chegar a casa com aquele cheiro desagradável de quem pisa o que não planeia terá de ser cauteloso e pensar pelo menos quatro vezes antes de por os pés ao caminho.
A falta de iluminação pública, existente só mesmo onde pára o comboio, oferece-lhe uma perfeita visão das estrelas que olha deliciado, mas já de uma forma quase rotineira. Perto de casa vê a luz das traseiras acesa e é por ela que se orienta e acelera o passo. A pouco mais de cinco metros da porta encontra o cão da família que continua a recebê-lo de uma forma extasiada, a quem dá meia dúzia de festas levando-o depois para dentro de casa.
O pouco (nenhum) movimento nos espaços de coabitação disse-lhe:
- Já foi tudo para as palhinhas.
Na mesa um bilhete apontava freneticamente para o forno. Ao fundo conseguia distinguir o som da telefonia que entrava pelo buraco da chaminé debitando uma voz monocórdica lendo as notícias:
- Boa noite. Alguém se esqueceu mais uma vez do rádio ligado!
Olhou para o tecto como quem procura uma resposta e decidiu jantar. Garfo e faca a picar e a cortar. Pouco depois estava acabado e enfiou tudo na máquina. Botão verde para dentro. Apagou a luz da cozinha. Enquanto subia as escadas voltou para onde veio para apanhar a pasta caída no chão da cozinha, ao lado da cadeira onde se sentara para comer. Não voltaria a ali entrar num espaço de pelo menos oito a nove horas.
Ao espelho lavou os dentes. Percebeu que já não tinha acne. Pôs a língua de fora, disse meia dúzia de coisas que nem ele entendera bem, lembrou-se da viagem de comboio, deu uma cabeçada, piscou o olho e decidiu ir dormir.
Quase desligado da corrente viu o céu por cima de si com toda uma resignação natural de quem tem uma vida quase igual à das outras pessoas não fosse a clarabóia que tinha no quarto. Do nada surgiram campainhas e acordou eram já duas da tarde.

As cortinas do quarto de pouco ou nada serviam pois a luz entrava ávida e em pleno pelo buraco hexagonal que tinha no tecto. De olhos ao lado enfiou-se nos cobertores e viu que o breu pouco via também. Quando voltou ao mundo de cima apetecia-lhe barafustar com os ajudantes, distraídos por uma palermice qualquer, que se esqueceram de dar à manivela. O escafandro estava com as reservas de ar completamente esgotadas, mas isso pouco interessava porque não estava numa sessão de pesca submarina. Levantou-se com dores de cabeça cantantes.
- 350125 GO! [1]
Mais do que mecanicamente corre para a casinha que o acolhe prontamente, pondo as torneiras a girar e a água a correr. Senta-se então na cadeira que lhe estava destinada e aguarda o início do bailado. A secção de cordas acaba de afinar. Quando baixam as luzes e a bailarina entra em cena, congratula-se por ser um coreógrafo fora de série com ideias muito invulgares. Fecha por segundos os olhos e está diante do espelho com ar de quem se vai fazer à vida limpinho e arranjadinho.
O caminho para o apeadeiro é desta feita visível, mas o que verdadeiramente lhe interessa são as escadas onde moram objectos nos degraus e que não estão iluminadas. Tapa os ouvidos com distorção e segue alegre e saltitante, tendo contudo que voltar para trás. Engole, bebe e volta breve. Direito ainda da frescura corporal não abana com a trepidação e berra por dentro com o rufar da tarola. Fora de série, sonoridade agressiva feita para o esqueleto. Abana e não faz quebrar. Acalma, voltando tudo ao mesmo mais duas guitarras em distorção furiosa... e a multidão eleva-se em aplausos, gritos e acidentes capilares. Acabam finalmente, começando outra vez. Saindo do comboio, mergulha directo no passeio num sentido figurado porque aos ouvidos lhe falam de verdade e de mentes andróginas. Olha em redor o desajuste, sente-se não receptivo a tudo aquilo continuando contudo no formigueiro. Abranda.
Conhece o padrão da calçada por com ele partilhar algo todos os dias. Farto disso mesmo tira os olhos do chão encontrando-se com os das formigas que rumam no sentido oposto ao seu. Resguardado dos mais curiosos porque vê tudo mais escuro, usa como protecção um vidro fumado, capta um soslaio mais demorado e a confiança em ser quem não é sobe-lhe pela cabeça, misturando-se com a agressividade das guitarras e a plenitude do baixo contrastante que tocam no pavilhão auricular mais um concerto só para ele.
Toca à campainha na esquina onde é a entrada. Insiste, insiste com força, vivamente ansioso. Não está... quem mora na sua cabeça. Um concerto solitário de uma banda representativa e preponderante na história do sheik só para si e não está quem lá mora. Corre rua acima, positivo no galgar da rota em linha recta. Clarinete assumido para com os outros, de nada lhe serve a leveza activa e eléctrica do som que de todo assim é. Pensa mais uma vez, mas só um pouco e agarra a moça que mais à mão lhe aparece... BAM. Swing acima de tudo e balanço na forma como põe o pé no chão. Ai o ouvido! Beat dançante e a vida é o cabaré possível no momento em que a rapariguinha rodopia e lhe escorrega entre as pernas ao contratempo da orquestração. Falam de coisas engasgadas. O momento passa esganado perto do fim. A nostalgia aborda-os... preocupados com o desfecho fazem muita força e começa tudo de novo. Imagine-se a avenida feita em parada com papeis vindos do ar, povo, fanfarras, carros alegóricos, dançando-se pelo meio com os trejeitos Sputnik em vivas pianadas. O falsete soberbo entra ao barulho dando mensagens de solidão ao aborrecimento, ambientando-se ao disco (sonoridade) e já todos dançam, agora em sintonia cinematográfica, de braços ao ar e mecanismos predispostos. É parecido com a coisa dos pensos higiénicos onde o mundo inteiro é uma grande festa, mas não há pachorra para lá ir porque a gosma que escorre dá dores de cabeça e uma irritação inigualável. Tudo isto um bocado à moda da Paula das boas maneiras que está lá sempre, mas com um ar muito tampão auto mutilado. Acabou...

Atendeu o telefone, impostor de plástico que interrompera o seu sono laboral para perguntar pela Linda que nunca conhecera naquela vida ou em qualquer outra. Depois de desligar esfregou os olhos. Depois de esfregar os olhos levantou-se. A folha da secretária insurgiu-se:
- Desliga o tipo da ficha!
Escuro. Perde os contornos de tudo, incluindo os do próprio corpo. Mergulha doce na espiral imperceptível e é calor de nó na garganta... aquele tipo de embalagem que traz melancolia e vontade de usar as unhas contra a carne, mesmo que cheias de terra por baixo. Esfacelar o rosto com desespero por cair sem destino, sem abranger o inevitável estatelar do corpo que rebenta angustiado por um choro pueril, sem amor (por pouco desmaiado que seja), sem companhia, quase criminoso na solitária... de coração escaqueirado. Desmaiado, é encontrado de cardíaco artefacto às avessas, pendente nas mãos.

Tudo anda para trás, bem como para à frente. Volta ao ponto de partida antes do desligar, antes do escuro. Parece uma fracção de tempo insignificante tudo isto. Alguém poderia mesmo dizer que nada acontecera, mas como não há viva alma por ali: NADA FEITO. Atende o telefone e perde meia coisa de minutos naquilo. Exausto, engole, bebe e volta breve à felicidade.
De volta ao andar máquina, desta feita em passo descendente, não há muralhas de vidro ou maquinaria para cobrir o que não se quer mostrar e mesmo o que se quer. A fria e inigualável amizade que desenvolvera com ela gerou a relação perfeita que até ali sempre acontecera. A amabilidade com que o deixava pisar em tudo era-lhe retribuída com um bom pisar, cheio de beleza e sentido estético. Todo ele balanço, calca deslumbrante o passeio que a noite lhe oferece na plenitude da mais inconsolável afinidade. Vislumbrada à luz dos candeeiros alaranjados, toda esta coisa tresanda a matrimónio para a saúde e ao reverso. Daí a minutos a coisa dá para o torto e Rafael acaba com a cabeça a bater no vidro do comboio: a contenda instala-se para só serenar quando mais uma vez olhar para as estrelas maravilhado mas já quase acostumado.
Pouco se dão a perdões assumidos e enfrentam as situações fugindo e presenteando-se alegres com soluções por vezes etílicas, por vezes aditivas, a maior parte das vezes destruindo-se apenas de um lado para o outro e nunca na reciprocidade de quem afina pelo mesmo diapasão. A noite fornece, ele aceita e paga o preço que tiver a pagar, nunca ficando coisa alguma por contabilizar.

Toma consciência de uma quantidade nunca antes ouvida de sons naquela música e acorda do entorpecimento balançado e muito pintas que ela lhe fornece.
- São sinos senhor, são sinos!
Acelera acelerado acelerando e por pouco perdia o comboio.
Sentado e vibrando perde-se outra vez em sons e baterias. Considera, pouco se importa, adormece e reconsidera:

O fundo do buraco, a pedra que salta do chuto, a melodia do urbano-sensato, a coisa em comum com o resto dos olhares, a malga de pevides, a erosão do temperamental, o ciclo vicioso do acordar em sobressalto contínuo, a dor do emplastro, a décima casa em frente ao mundo, o grito da sineta, a plateia deliciada, o rosto do homem em cima da mesa, a pata de avestruz gravada no cimento fresco, a distorção, o stress, o gazonete, a vontade, o tique, a simbiose, a pala da Expo, o gira que gira e torna a girar, o Mao Tse Tung, a Frente de Libertação, a profilaxia social, o marasmo de outro segundo, o chefe dos índios, o Bobby Robson, o cerco que não nos sai da cabeça, a morte que não me agrada falar acerca de, a peste do silêncio, o vivido do cortinado que da rua se vê gasto, as mil e uma noites que não passo por dia, o trevo e a abelha, a Emily Dickinson, o palpitar do som vazio sabendo a cognac Martell, a valsa do aeroporto em flor, o domingo das romarias, a mansão untada de banha, o símbolo dos justos, o jacobino dos persas, a pessoa no pavimento estoirada, a visão do passado e de outros voos, a memória do susto, a queda do fim, o osso que quebra, a finalidade que nunca acaba, o rodar das telhas, o preço do petróleo, o semáforo vermelho, a voz serena da música da telefonia, o requerimento para ter saneamento básico, a felicidade da festa, a geração do reprimido, a geração do comprimido, o rasto que segues e não gostas, o querer voltar para trás, a menina e o seu adeusinho, a luz que nunca apaga, o menino que nunca dorme, a Roma da Pavía, o cão do magistrado, o sono dos justos, o muro das lamentações, o diz que disse, o Pacto de Varsóvia, o Sakamoto ao piano, a nuvem do desalento, o sol do imperador, a pesca do bacalhau, o presépio de madeira, a fonte cheia de espuma, o cobertor amarrotado, a sinfonia dos rebuçados, a cantiga à criancinha, a Maria da fonte, o suave ardor do imperfeito, o dia que não chega para serenar, o mundo que não tarda em adormecer, a fustigada maqueta de paralelos, a saia que não roda, o olho que é curto, a carteira que bate na cara, o voltar para casa com esta música dentro de mim, o Estádio da Luz, a madrugada que está fria, a pele da cabeça que não está tão fresca como ao acordar, o mel para por no pão, o maço que está vazio, o ditado popular repleto de sabedoria, o não saber falar quando se sente mais do que um pouco mais, o misto, o só com queijo, o só com fiambre, o só com dentes, a conta da luz que não veio, a correcção dos teste de matemática (?!), o ser e toda a sua questão, o gato, a areia sintética humedecida, o carinho do calor, a venda nos tornozelos, a liberdade de expressão, as micoses de estilo, as figuras de palerma, a casta senhora que vem à janela cantarolando, o trigo e o vinho, o pão e a paz...

Parecendo o menino nas palhinhas deitado enquanto dorme o sono dos justos acorda devagar e olha lá para fora. Ainda não é agora.
- Tolera, mas não suporta.
- É dos dias... tudo parece mais escuro, e aí salta da cama e corre para o sofá!!!
- Vegeta louco, alterado em costumes brandos.
- E o pior é que já não escalda ninguém... é uma espécie de arca frigorífica às portas do desemprego. Dá-se às fobias do gelo e guarda-as no quarto-de-banho.
- Há dias assim!
- Parece uma engrenagem partida e ferrugenta que anda, mas deixa rasto.
- Um pouco como as lesmas.
Ouve risos ao longe, leves e pouco breves. Acorda melhor e reconsiderado. É aqui e sai.
Quente, com sabor na boca a verão, anda no abafo e chuta o quebradiço que se solta do cimento. De volta à escuridão, de volta às estrelas, de volta à satisfação, de volta ao caminho, de volta ao atípico que contempla, de volta ao mundo, de volta à paz e ao amor que sente, de volta ao serenar, de volta a casa, anda respirando fundo.
Tempo é para começar de novo. Ver que por detrás das costas, só mesmo virando a cabeça se pode ver o que quer que seja: o inevitável trejeito proveniente da sabedoria popular é a desilusão sem grandes cerimónias.
- Que diabo!
Alguém deu um passo em falso ou nada disso é assim e ninguém quer apanhar mais sol e as companhias de protectores solares vão-se passar e vai ser moda no próximo verão a porra do guarda-chuva.

Quando entra em casa sai pela porta assim mesmo. Do negativo do desabrigo sai para o positivo do desabrigo sem antes visitar o positivo do abrigo e o negativo que este é quando nasce o dia e dentro de casa é mais escuro que na rua: a manhã.
Tem o odor do corpo acabado de lavar, a frescura do conforto que se deixa ao sair porta fora, mas a vida sabe a círculos onde já não diferencia o começar, o meio ou o acabar. Volta tudo ao mesmo. Acompanha-se de uma guitarra acústica com cordas de aço e meia dúzia de arranjos de cordas – é a sinfonia ao desalento possível. Vistas bem as coisas, tenta ser limpo, ter conteúdo, ouvir as palavras da senhora... pensa no viver, no dançar, na lua, no andar, no calor que não suporta porque os outros suportam, no frio que gosta e que há mais quem goste também. Olhos nos olhos e mãos nas costas caminha.
No apeadeiro chega a hora e olha para casa. Do botão abre-se a entrada e a estaca zero fecha os olhos pois acabou nesse preciso momento a sua função. Há que andar até as luzes se voltarem a acender nos postes e o mundo serenar para o sono, enquanto noutros meridianos acorda para a vida.

Quase com dinamismo, a grande velocidade, viaja até onde a maquineta parar. Consome-se no atrito da linha que permanece igual a si própria os trezentos quilómetros do percurso. A boca sabe a gritos para dentro e o conflito, esse, acontece médio a cair para o muito ou elevado. Parece que não perde aquela tristeza funesta, pedestal do aborrecimento, miradouro na encosta de um campo de concentração. Pede o formulário para se erradicar, perdendo-o sucessivamente ao sair do edifício onde cedem esse tipo de formulários. O cabo das maleitas...
Acontece todo o dia aos cortes... no braço, na película do diário filme, ao almoço, antes de deitar, quando está a ser oprimido, quando se quer rasgar de fora para dentro por tanto se não amar, por se saber não suportável perante si mesmo. Peso, atrás de ainda mais peso, e a cabeça não pode dar mais cabeçadas porque pesa e já não é atreita a mudanças, embora o tenha sido noutros tempos. Não dá para fugir a esse quase martelar de pouca auto-credibilidade em que vive enterrado até às axilas. A gaita é que falha sempre alguma coisa. Acaba por lá chegar duas horas depois sem saber se está bem ou mal. Permuta atrás de permuta até atingir os duzentos e setenta quilómetros por hora. Contudo, aguenta.
Chega.
O caminho é da nicotina. Vai lacónico com fumo do cigarro, intoxica-se na rua por não querer pagar arranjos de paredes a precisar de “umas de mão”. Permanente no pisar põe o som nos ouvidos, inspira débil a neblina e rasga por ali fora. Não conhecedor do sítio é pragmático na escolha do caminho para uma qualquer pensão: avenida fora e é como tiver que ser. Está pouco contente com a audição e há que mudar porque já abomina aquela cara que os “phones” tanto lhe dizem que é detestável.

Traído pelo instante lembra-se da corda de saltar que anos mais tarde cresceu e se tornou numa bela corda de pendurar. Abana a mão e o pé. Braço no ar e uma aparente falta de capacidades motoras. Escondido numa viela serena um pouco enquanto pensa em quartos com lençóis de linho, imaculados...
- Diz que um dia o Darwin o encontrara por mero acaso e prontamente lhe dissera: “Evoluíste!!!”.
- E depois?
- Riram-se que nem uns perdidos. Era um baila comigo mascarado.
Branca era a pensão onde entra depois. Duas figuras irritantes em pedra riam à boa moda do escárnio e o pavimento era um xadrez usual, daqueles que ficam bem em todo o lado menos em casa. Passou rapidamente pela fase do “queria um quarto”. Deitado na cama tudo aquilo sabia a madeira castanha e húmida... poderia ter sido a tal experiência do imaculado que obviamente degenerou, dando naquilo.

Amanhece agitado. Vive pelo bom e velho despertador de dar corda. Coisas de plástico com barulhentos toques digitais, abominável falta de razão, pouco respeito pelos que acordam, pelos que vivem honestos a luta dos dias e das vidas.

Usa na descendente o cordão colectivo do autoclismo da casa de banho e ao espelho vê-o em camisola de cavas, estranhamente sem nódoas, com a barba por fazer e os olhos ainda cheios de fungos. Olha ainda um brinco e isso torna-se peremptório: assim fica em três tempos, mas é demasiado volumoso para não rasgar qualquer orelha que seja.
Pronto para gastar aquilo que deve ser gasto na carga horária do dia, depende com sensatez. A agitação pouco nervosa que o assola é de uma quietude vegetativa, dando um pouco de cor aqui e ali. Manifesto interior por um lado, rábulas viciosas por outro, caminhos esquinados ainda pelo meio, a exaustão que vem com a noite deste dia mal aproveitado parece só desaparecer quando a madrugada se dá à claridade. Pausa que não existe, um pouco como uma jornada sem vírgulas ou pontos finais. Apenas e só reticências, do acordar ao acordar de novo, sem recusas, sem parar, sem tudo, com uma bolsa cheia de nada e uma paragem de autocarro sem gente. Passam e passam sem levar as alminhas para o diabo. Nunca nada mais quis do que viver do adormecer ao adormecer, onde o escuro é dia e a noite não se passa às claras.
E é aqui que entra na festa: uma coisa com o tom dos anos dourados, cabelos cortados de cima para baixo e calças a apertar no mesmo sentido. Tudo grita minha gente retorcida. O colorido não falta, a imensidão do claustro é húmida e pinga do tecto porque o ar se transforma em água. Encontra um canto escuro e não encontra mais nada. Tiram-lho em dez segundos porque ali não há espaço para a escuridão, só mesmo para um disco do Franz Sintra[2]. Mesmo assim, mentor estético de si mesmo abana e abana. Quando não agita mais recorre à imaculada lembrança dos lençóis e volta breve à felicidade.
Qualidade de vida é não bater com a testa nos vidros do comboio. De pouco ou nada se recorda quando volta a casa e faz outra vez os trezentos quilómetros de regresso ao quebradiço do apeadeiro que chutará sem cerimónias

[1] Início de Warsaw, tema da banda britânica Joy Division.
[2] Opção possível do corrector ortográfico para Frank Sinatra.

2007-01-09

Me and my charms (I)

Enquanto escorre, a água pouco se importa com obstáculos no meio do seu rumo quase romaria ao fundo do objectivo. Nunca sobre ascender demora mais do que três ou quatro segundos a meditar. Facto é: quando ascende é de ascensor e nunca por escadas ou caminhos... Desconhece o árduo esforço dos quinhentos degraus, um após outro, sem tempo sequer para a preocupação ou para a exaustão. Não sobe – eleva-se. A vida facilitada que conduz, a liberdade com que cai, vai caindo, cai e vai caindo, tudo lhe é natural, do acordar ao desligar, do estatelar na poça mesmo aqui à beira do monte. O próprio rochedo lhe não perturba o objectivo. Limpa é a paz que dá ao banho dos incautos quando outra hipótese nunca é oferecida e pela rua são obrigados a optar em função do abrigo que o toldo garante. O momento é, no mínimo, repleto de um sentir poderoso: a escolha entre o conforto, o abrigo e a água que cai no desabrigo, do desabrigo e para o desabrigo.

Quando molestado pelo Janeiro aquático vindo do norte, o pomar baila na luz e no escuro. Cresce em linhas de agitação, não foge ao pensamento da massa que o envolve, nunca renega ou nega o acontecimento. O presente é ventania, chuva, tempestade, agonia e ramos partidos. A fruta só não cai porque ainda não nasceu ou talvez esteja abrigada dentro dos troncos. Nem sei.

Ao entrar dentro do carro, e se de uma gota apenas se tratar, o momento parece suspenso. Estrela cadente, tal e qual, fugaz e decidida, penetrando a atmosfera de fumo e diálogos confusos proporcionados por um nevoeiro grosso, ainda seco, ainda por molhar. O assunto pode ser outro – a gota multiplicada aos milhares entrando pelo carro e o nascer do desconforto da roupa colada ao corpo. Chocam as árvores, partem-se os ramos e os troncos, antes de baterem no vidro, espalham pelo chão a fruta que dentro tinham resguardada... Banhados em água, os pés, os cabelos, os olhos, os olhos da cobra, o rendimento do mês, o vidro partido, a viagem, a casa, a ida para casa, o rosto gelado e a triste percepção de que mal se vai viver daqui em diante até um dia desses, ou destes, se o tempo implicado tiver uma maior equivalência. É directamente proporcional em relação ao que se anda para a frente, o andar para trás.


2006-12-22

Na véspera da antevéspera de natal percebes finalmente a vertente ingrata do individualismo: sobre o não haver bela sem senão dás-te às luzes e bebes mais um copo ou outro. Fazes aquilo que te compete e acabas num filme de sete ou oito pessoas numa de fazer arroz e silenciar a normalidade… no caralho da véspera da antevéspera de natal deixas de acreditar naquilo que a sobriedade das pessoas significa – desces a rua do Almada, palpitando-se a cidade já em teu redor e queres ir ver o mar numa onda de tipo janado com uma réstia de intelectualidade… segues para casa porque nenhuma da boa onda que estava contigo consegue elaborar-se despreocupadamente ao ponto de rebuçado.

De soslaio olhas as montras e tentas ver-te. Apenas e só.

Na véspera da antevéspera de natal bebes copos à violência e metes pelo nariz tudo aquilo que consegues. Depois vais para casa ouvir Hugo Largo e sentir o sol já alto da manhã no focinho enquanto te zangas com o mundo… daqui a pouco acordas e vais pagar contas e dizer mal da vida.

Passeias-te pela rua cheio de incerteza. Cheio de moca é o que é. Assim, preto no branco e com direito a ponto final porque é mais afirmativo… aconteces enquanto alguém te enfia esta merda pelos ouvidos dentro:

“I slipped away
I slipped on a little white lie

We've got heads on sticks
You've got ventriloquists

Staring at the shadows at the edge of my bed

Rats and children'll follow me out of town.
Rats and children follow me out of their homes.

come on kids”.

2006-12-21

Compostela (I)

Viagens, caminhos, ruas de pedra, pés mastigados… uma simples ida com direito a noite bem dormida, cortada exactamente a meio. Respirar o colorido de um velho sítio que te é novo requer pelo menos mais um dia para ficares com algo alojado no pulmão. Reciclada a experiência, olhas para ela com a distância de alguns dias… a chuva é algo que todas as cidades europeias oferecem. Arcadas povoadas à luz laranja e artificial da noite passam a arcadas povoadas à luz de um dia menos cinzento que o anterior. O pulso que sentes é outro, diferente no olhar com que caminha certo e regular, pronto para entrar em casa antes do almoço. Segues o caminho ansiando uma situação meteorológica um pouco mais estável… ainda pinga dos beirais quando dás com uma praça severa e trajada a rigor pelos preceitos eclesiásticos. O silêncio do tempo debitado gota a gota faz com que andes da sobriedade para uma relação pós-moderna com o mundo a uma velocidade estrondosa: o peso da pedra dos edifícios adornado pelos pins que ostentas orgulhoso na lapela de um casaco de couro gasto pelas vicissitudes do imaginário das Américas do rock’n’roll. Em espaços abertos onde outrora as gentes se peregrinavam, passeias hoje os teus dogmas e pecados mortais envolvidos numa mortalha que te é confortável por talvez a teres sustentada por dois ou três alfinetes de segurança.
Tens uma história para contar? Sim, dessas que metem gente a andar de um lado para o outro numa cena de procura ou demanda? Hoje qualquer um as pode registar, debitando-as instantaneamente para a galeria de uma memória descritiva acessível em qualquer parte do planeta: a tua verdade sobre o admirável mundo sempre novo/sempre já não há paciência para lembrar que nele já se passaram horas a fio.
Santinhos de pedra e homens de batina preta sorriem-te pelo meio dessa breve cruzada, povoada na noite anterior por copos de cerveja em espaços plurais e adornados por neo-fascistas quase educados, homens de meia-idade, mulheres com alguma curiosidade e placas de granito com letras sulcadas a vermelho indicando o nome das ruas e praças.
Apesar de pouco ou nada te entregares as questões da espiritualidade e raramente te entregares a auxílios vindos dos caminhos do não palpável, dás contigo por ali com passadas indecisas que pisam outras tantas, talvez idênticas ou talvez não… sentes o aroma a demanda no ar. Não deixa de ter piada o facto de a sentires como uma das muitas conquistas das classes-médias: a renúncia à coisa religiosa em prol de uma peregrinação pré-natalícia na procura exaustiva de alimento comercial diversificado e acima de tudo inédito.
No meio de tudo isto vem-te à cabeça o Keruac e a sua também viagem ainda e sempre por preencher. Respiras a conquista de um espaço aberto e contínuo no seu desbravar . A travessia pelo desconhecido como justificação de um sentimento maior que ele próprio enquanto necessidade espiritual… talvez um caminho de fé, com outro colorido – é claro. Nas Américas é de costa a costa com o vazio que não se conhece recheado o miolo entre elas… agreste, selvagem, imenso. Deste lado do atlântico acontece o mesmo mas num espaço apenas interior não projectado a contextos externos – a tua aquisição exclusiva da necessidade de conforto espiritual, possibilitada pela seriedade que só instituições e entidades com mais de meio milénio de existência podem oferecer… outros dogmas e paradigmas.
Respiras fundo, enches o ego de ar e pensas algo que dá que pensar: a conquista da imensidão materializa-se quando intelectualmente és capaz de justificar de uma forma definitiva aquilo que pode representar Cristo e um Jedi a dançarem um passo doble.

2006-12-12

5 de Outubro

Sabes como é quando estás perdido de tudo e só consegues encontrar o ponto de reconciliação numa espécie de infinito indeciso? Gostava de ter a capacidade de te surpreender, aparecendo. Bebi demasiados copos e dei comigo em casa, completamente sozinho a ouvir os Interpol às dez da manhã… raios! Falta-me o gazonete. Podia ser como o antigamente e as mentiras faziam todo o sentido. Parado no tempo, com o pensamento na diferença – tudo é igual ao costume e os velhos tempos lembram única e exclusivamente os trapos.
Decidi assim, cheio de trampa no caco, fazer aquilo que não devo porque preciso de nada ter a ver com o filme que me obrigam a ver desde que me levanto até que apago. Carícias e algumas malícias, doenças e aperitivos soam-me a não surpresa… aqui, sentado em frente a uma tela que materializa o que penso porque carrego em botões! Não chega alma alguma que acenda a puta da luz. Está tudo encaixotado por cima e por baixo…
Não consigo parar de pensar na posição em que estás neste preciso momento… um sofá ou uma noite mal dormida e tudo o resto é treta. Sei que não acreditas porque não é de todo importante. Mesmo que fosse, nada muda e tudo sabe sempre ao mesmo. Assim sem rodeios… estás fora para caralho, sem preencher espaços ou fornicar iguarias. Sítios e más curvas percebendo que falta a fé e não faz mal. Pode ser conceptual: as aventuras morrem secas e o que apetece mesmo é pegar numa guitarra e esbagaçar… Sou demasiado importante para querer saber do resto. Parte para a frente, olha sempre para trás. Sorri. Pelo meio de todos os encontros contigo esqueci-me de te dar importância quando sorrias. Conversa regada de Super Bock, charro e coisa e tal… mas o sorriso foi-se. Riso à boca cheia e muita filosofia de filosofar. Aquilo que realmente interessa faz com que os outros chorem e não percebam que te estejas a marimbar para desperdícios ou conversas sobre coisas especiais. Gostava de dizer-te que me tornei aqualquer-merda, tipo apartidário, mas não. Falta-me a tomatada… fraquinho que até mete dó e etc…
Quando vinha para casa desci a rua… hey! Estava uma neblina fora de série e não tinha uma mão para segurar.
Talvez ande a passar demasiado tempo comigo mesmo e esteja a entrar na onda de me tentar arrastar para que a conjuntura me ache uma espécie de aleijadinho sem dignidade. Talvez precise de me mudar para uma terrinha com um clima menos quente com pessoas que não se importam e que vivem em casas com belos sistemas de aquecimento. Talvez no dia de hoje que é o 5 de Outubro devesse ter comigo alguém para maltratar a República.
I have this tendency to act like a jerk! Conheces? Tem uma faixa chamada Headless Tango... dá para verter horrores por tudo quanto é ouvido atento e celebrar tudo enquanto esventras a moca e a bebedeira contra a parede porque tentas fazer as merdas com alguma lógica… depois entram os Smiths cheios de propósitos obsoletos e bafientos à brava: chá lá lá e imensas desculpas carregadas de treta e falta de trela.

 
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