Situações climatéricas extremas acabam por ser favoráveis à digestão destes momentos, dependendo delas a magia das imagens. Invernos rigorosos, preferencialmente cobertos de neve, por promoverem um maior contraste na captação das imagens, fomentam registos interessantes porque possibilitam o uso de boinas, gorros, chapéus, luvas e cachecóis, optando-se habitualmente por roupas mais escuras e casacos compridos com um corte mais talhado. Mais uma vez, e seguindo a lógica dos cinzentos fotográficos, as cores do momento ficam retidas na memória vivencial e o que transparece, para além do exercício de estilo, acaba por ser um instante promovido a acontecimento de excelência. Com a chegada do frio, situações de rua em que a partilha de uma misantropia a dois acontece acabam por juntar os corpos um pouco mais. Começando a questão por se levantar num plano de mera sobrevivência procura-se calor, literalmente, no outro lado. Os abraços são mais apertados e as mãos vão-se mantendo nos próprios bolsos ou eventualmente nos de quem incondicionalmente ali está. O calor acaba por se sentir para além do resguardo dos casacos totalmente apertados e ao respirar-se bem fundo o frio cortante não faz mais do que realçar interiormente o conforto habitual da companhia que se sabe certa, soltando-se talvez por isso menos palavras e procurando-se, por outro lado, um pouco mais de contacto físico. A presença das coisas boas, também conhecidas por mimos, é um pouco mais frequente… sabe pela vida fazer uma pequena pausa num desses passeios invernosos e entrar em algum sítio quente e preferencialmente com algum significado emocional para beber um chá ou uma chávena de chocolate quente, surgindo mais uma vez a oportunidade de registo ideal. De máquina em punho é bem mais árduo conseguir ultrapassar a resistência de quem do outro lado se debate para não ser fotografado do que o frio instalado de armas e bagagens por toda a cidade. Pouco depois vem a reciprocidade, como é habitual neste género de situação, e cai-se sem grandes problemas no “agora tu e eu logo de seguida”. No quadro seguinte fotografa-se às cegas num abraço tão apertado ao ponto de se conseguirem enquadrar as duas pessoas no visor que nenhuma delas consegue ver porque tal como a caminhada a quatro pernas este é um momento a quatro mãos.
De volta ao frio, agora um nada mais agudo por já se ter posto o sol, aperta-se a companhia ainda mais, na tentativa de conservar o investimento quente feito poucos momentos antes. Conversa-se de um jeito mais anímico enquanto o ar condensado se liberta. O caminho vai-se seguindo sem grandes preocupações ou planos imediatos. O fluir das ruas ao final de uma tarde de Inverno costuma ser um pouco mais animado do que em épocas mais quentes quando toda a gente se senta em esplanadas. Sente-se um pequeno frenesim e as pessoas são mais decididas nos itinerários que aleatoriamente vão definindo. Durante os fins-de-semana passa-se sempre alguma coisa em todas as praças ou espaços de maior concentração de dispersões lúdicas e não é de todo difícil desaguar nestes sítios quando se seguem as massas de decididos caminhantes, uns porque por lá pretendem ficar, outros porque fazem questão de ali passar na esperança do tal acontecimento ou outros mesmo porque vão para um lado que nada tem que ver com aquelas paragens, mas fica a caminho e é sempre agradável fazer aquele trajecto. Certo é daí a nada estar-se com uma dúzia de castanhas nas mãos frias e daí a nada, especialmente depois de se decidir ocupar um dos bancos da praça se estar outra vez no encalço de momentos de teor registável, agora acompanhados de flashsituacionais e com a vivacidade do momento, mais tarde apelidados de postais, como uma espécie de tentativa legitimadora in loco dos momentos passados durante aquelas horas. Um comprovativo de alguma felicidade ou algo parecido.